“Fecharam a rádio; é como se tivesse morrido alguém da família!”

Caminhando na perspectiva de construção de uma democracia para todos e de todos, emerge do seio dos movimentos sociais organizados e, de forma bem mais expressiva, das comunidades periféricas ou ditas em situação de risco social, a necessidade de exercer o direito humano de comunicar a sua realidade; falar o que pensam, como vivem e percebem a paisagem social que os rodeiam. De timbre forte, constante e harmonizado essas comunidades, através de suas rádios comunitárias, querem viver e dar vida a esse direito exercendo de fato a sua liberdade de pensamento e expressão.
Direito esse que extrapola a nossa Carta Constitucional e ganha proporção mundial se considerarmos que o Brasil aderiu, em 25 de setembro de 1992, ao que rege a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, ou seja, ao Pacto de São José da Costa Rica, cujo texto referente ao direito humano à comunicação ? Art. 13, é claro e enfático ao afirmar que: ?1. Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento e de expressão. Esse direito compreende a liberdade de buscar, receber e difundir informações e idéias de toda natureza, sem consideração de fronteiras, verbalmente ou por escrito, ou em forma impressa ou artística, ou por qualquer outro processo de sua escolha?.
Ao refletirmos sobre essa questão nos perguntamos com que argumento os governos federal, estaduais e municipais querem restringir a interlocução e o diálogo dos cidadãos através da radiodifusão comunitária? Será que ignoram esses acordos internacionais ou simplesmente os aderem pro forma? Pois, quando a Agencia Nacional de Telecomunicações (ANATEL), de forma inconseqüente e sem ter clareza da dimensão do estrago que causam, segue Brasil a fora lacrando e apreendendo equipamentos oriundos de rádios comunitárias, deixa evidente para a sociedade civil organizada e para essas comunidades o quanto relapso e irresponsável têm sido os nossos parlamentares e governantes que ao violarem esse direito ignoram o fato de que o Brasil está entre os Estados-parte que defendem o acordo de que ?Não se pode restringir o direito de expressão por vias ou meios indiretos, tais como o abuso de controles oficiais ou particulares de papel de imprensa, de freqüências radioelétricas ou de equipamentos e aparelhos usados na difusão de informação, nem por quaisquer outros meios destinados a obstar a comunicação e a circulação de idéias e opiniões?, explicito no Art. 13:3 do Pacto de São José da Costa Rica.
Para entender essa contradição, poderíamos nos conformar em analisar a situação de forma simplória pela ótica polarizada da distância entre o discurso e a prática; isso, se não fossem as tristes e lamentáveis conseqüências que trazem para essas comunidades, rotuladas pelos gestores públicos como comunidades em situação de risco, com mulheres, adolescentes, jovens, crianças e idosos, homens e mulheres vivendo essa situação de risco, que brutalmente e sem um comunicado ou explicação prévia são violadas no seu direito de expressar e comunicar.
           Para retratar esse triste quadro, gostaria de registrar o quanto sofrível tem sido para uma das comunidades que temos acompanhado viver essa experiência de visita da ANATEL, acompanhada do conseqüente lacre e apreensão dos equipamentos da sua rádio comunitária (Radcom). Em uma das falas dos comunitários a perda é vista como algo insuportável ?é como se tivesse morrido alguém da comunidade. Já estávamos acostumados a ouvir as saudações ao pessoal; aniversário de Luzia vai aí o nosso abraço?. E mais ?Seu José, antes de partir dessa, teve na rádio falando do tempo em que agente corria pelas ruelas da comunidade e de como era bom entrar na maré prá brincar e depois, de noite, ouvir as estórias do veio do mangue que fazia com que as pessoas da comunidade que agrediam o mangue ficassem perdidas. Puxa vida, como dá saudade?.
          Com palavras soltas no ar que impactam diretamente na vida de milhares de comunitários as radcom atuam no coração e no imaginário dessa gente que encontram nessas rádios autenticamente comunitárias, novas possibilidade de se sentirem mais que apenas pessoas em situação de risco social. São jovens que se ocupam atuando voluntariamente no dia-a-dia da programação, ao invés de estarem aumentando as estatísticas de marginalidade e criminalidade; gente como nós que através das rádios comunitárias encontram motivação para reinventar o seu cotidiano e criativamente ir delineando novas configurações de relacionamento baseados na justiça, verdade, valorização e amor aos seus pares e ao local onde vivem
          Jany Mery Alencar (Jornalista de João Pessoa-PB)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: