A cidadania se mobiliza para monitorar a mídia

Já se tornou um clichê dizer que a comunicação tem papel central na vida contemporânea. Tanto é que a noção mais próxima que temos de realidade é construída muito fortemente pelos meios de comunicação. É por meio deles que nos informamos dos conflitos no distante Oriente Médio e dos fatos que movimentam as ruas do bairro. Cada vez mais, a mídia funciona como extensão de nossos sentidos humanos, como já disse uma vez Marshall McLuhan.Essa presença maciça no imaginário popular não só altera as relações entre os sujeitos e os acontecimentos como também modifica as coordenadas de espaço e tempo. Pela internet, o mundo fica pequeno, do tamanho de um clique. Pela televisão, a história acontece ao vivo, quase sem delay. Isso não é pouco. Quando o presidente norte-americano Abraham Lincoln morreu em abril 1865, demorou quase duas semanas para que a Europa recebesse a notícia do seu assassinato. Passados 136 anos apenas, assistimos boquiabertos um segundo avião chocar-se contra a Torre Sul do World Trade Center. Ao vivo!A mídia não vem apenas registrando as vertiginosas mudanças mundiais, mas também tem sido responsável por boa parte delas. A sociedade não apenas se deixa envolver pelos meios, como os reflete, adere ou descarta a sua influência. Mais complexa e amadurecida, a sociedade contemporânea reage ao noticiário, ao entretenimento, a abusos e a boas iniciativas da mídia. O público ainda não deixou sua posição de total passividade diante dos meios de comunicação, mas alguns movimentos vêm demonstrando a emergência de um novo pacto com a mídia. Uma relação mais efetiva, de maior diálogo.A sociedade se mobiliza para ler mais criticamente a mídia, para consumir informações de forma mais criteriosa e preocupada. Claude Jean-Bertrand, professor francês que se ocupa de analisar a mídia, lista uma série de iniciativas que chamou de meios para assegurar a responsabilidade dos veículos de comunicação. São publicações especializadas, associações de usuários, ouvidorias, conselhos de imprensa. Mas a forma de crítica de mídia que mais vem se espalhando pelo mundo, e pelo Brasil também, é a dos observatórios de meios. Eles já funcionam em quase todos os continentes (não se tem informação deles na Antártica… ainda), estão nas universidades, são alimentados por organizações não-governamentais, por associações profissionais e até mesmo por camadas da sociedade que antes não demonstravam tanta atenção à mídia.Práticas e procedimentosNo Brasil, a história dos observatórios de meios é recente, tem pouco mais de uma década, mas o rápido desenvolvimento da indústria das comunicações e o alastramento dos cursos de comunicação catalisaram condições para o surgimento de experiências em diversos pontos do país.Os observatórios de meios têm pelo menos duas funções: fiscalizar os veículos e seus profissionais, e alfabetizar midiaticamente o público. Ao lançar um olhar atento aos meios, os observatórios apontam falhas técnicas, deslizes éticos e problemas de outras ordens. Coberturas tendenciosas são denunciadas, apurações mal feitas são destacadas, condutas condenáveis são apontadas. Mas fazer crítica de mídia não é apenas sublinhar o aspecto negativo, bons exemplos também devem ser enfatizados, embora o cacoete jornalístico priorize a bad news.Na medida em que erros são assinalados, os públicos têm acesso a contrapontos fundamentais para uma compreensão mais ampla do jornalismo. O cidadão comum acaba sabendo como funciona uma redação de jornal, como uma emissora de televisão edita seu noticiário, com quais critérios trabalham os repórteres. Tornar transparente a maquinaria da mídia é também contribuir para uma educação para o consumo crítico das informações, alfabetizar o público. Os observatórios de meios atuam nessa vertente também.Outras funções colaterais também poderiam ser atribuídas aos observatórios dos meios: eles podem funcionar como laboratórios para estudantes, futuros jornalistas; e podem ainda oferecer aos profissionais um retorno mais constante de seu trabalho.Como resultado de sua atuação, os observatórios de meios contribuem para o aperfeiçoamento de práticas, procedimentos e produtos jornalísticos. Melhorando a mídia, ajudam a melhorar a sociedade. Não é pouco, nem hoje, nem no tempo de Lincoln.

Desenvolvimento social

O principal personagem deste livro não é nem a mídia, nem seus críticos, os observatórios de meios. O protagonista é a sociedade que se mobiliza para mudar seus canais de comunicação, exigindo mais qualidade, mais comprometimento social, mais sensibilidade e equilíbrio, mais humanidade.

Por Rogério Christofoletti e Luiz Gonzaga Motta em 9/9/2008
Apresentação de Observatórios de mídia: olhares da cidadania, de Rogério Christofoletti e Luiz Gonzaga Motta (orgs.), 230 pp., Editora Paulus, São Paulo, 2008

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