A Rádio Favela, a TVC-BH e o diploma de jornalista

Heitor Reis (*)
 
 
Há poucas horas atrás, participei do primeiro evento da Semana da Democratização da Comunicação em Belo Horizonte.
[ http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2008/10/430912.shtml ]
 
Após um vídeo sobre a TV Comunitária de Belo Horizonte, assistimos ao filme Uma Onda no Ar, de Helvécio Ratton, uma versão antecipada de A Tropa de Elite e Cidade de Deus, com enfoque na luta racial e de classes que ocorre diariamente entre a turma do morro e a turma do asfalto, com o Estado e a polícia defendendo os interesses da minoria rica. Por outro lado, encontramos extremos negativos e positivos em ambas categorias.
 
Na seqüência, foram homenageadas as duas emissoras, com os tradicionais discursos de sempre, estimulados pela discreta e descontraída coordenação do presidente do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais, Rogério de Oliveira Silva.
 
Misael Avelino dos Santos, presidente da Rádio Favela não compareceu, como de costume. Nem Nerimar Wanderley Teixeira, o vice. Eles são arredios à certas coisas “do asfalto” como reuniões, homenagens, palestras e discursos, naturalmente fruto da objetividade, pragmatismo e concentração na praxis, que os colocou em uma reportagem de capa em The Wall Street Journal.
 
Foram representados por José Guilherme Castro que atuou durante anos como secretário de comunicação da emissora. Foi um dos fundadores da TV Comunitária  (TVC-BH), Coordenador Nacional de Comunicação da Abraço – Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária e Secretário Geral do FNDC – Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação. Hoje está militando nas Brigadas Populares e no Sistema Caracol de Comunicação, com duas rádios e uma TV em sinal aberto.
 
O pequeno grande Didi, Doutor Didi, batizado originalmente como Edivaldo Faria, juiz aposentado, presidente da TVC e da ABCCom – Associação Brasileira de Canais Comunitários relembrou os velhos tempos, estimulado pelo documentário que registrou cenas de seu passado e pelos depoimentos em vídeos de quem participou de sua maratona para construir a melhor TV a cabo do Brasil.
 
Doutor Didi poderia ter dito que o cavalo passou arriado e ele o montou… Mas, a imagem que traduz melhor sua história é que ele literalmente foi colocado em cima do cavalo arriado, resistindo a dimensão do desafio que percebia pela frente. Um valente que pega o boi pelo chifre sabia que o fracasso sempre foi a regra geral de quem luta para construir o novo. Mas acabou aceitando, por pressão dos que estavam fundando a TVC, a quem ele, como advogado foi ajudar, suportou um ano de discussões absurdas até surgir um estatuto que agradasse a todos e saiu presidente.
 
“A culpa de tudo isto é do José Guilherme!”, a quem chama carinhosamente de louco, atributo também dedicado pejorativamente à genialidade e à geniosidade dos que estão décadas à frente de seu tempo, tentando superar a dificuldade de traduzir para os normóticos a grandiosidade e a complexidade da revelação que intuem ou captam do futuro. Verdadeiros livros de Apocalipse ambulantes!
 
Nosso fotógrafo, dramaturgo, comunicador popular e artista visual Fernando Barbosa expôs as imagens que sua lente vem coletando sobre a história da Rádio Favela, decorando com elas o auditório que leva o nome do honorável primeiro presidente do CRP-MG, Ruy Lage Lopes. “A Imagem da Voz”.
 Após estas poucas horas de camaradagem, eu vinha chacoalhando numa sauna sobre rodas, fruto da “bela” administração PTucana de Belo Horizonte, cujas minúsculas aberturas das janelas são insuficientes para ventilar internamente o veículo. Lamentava estar tão distante dos micro-ônibus com ar condicionado de Porto Alegre (um real mais caro que os comuns) e de uma parte dos grandes que também oferecem este conforto pelo mesmo preço do convencional. Quase meia-noite, mas a temperatura insistia em se igualar à de meio-dia… Deve ser o efeito estufa, o aquecimento global, a crise global do meio-ambiente e das bolsas de valores podres!
 
Apesar do desconforto ou por causa dele, com meus dois últimos neurônios fritando naquele forno nazista, numa fuga para o sobrenatural, psicogravei mentalmente uma divina revelação! Ou uma Divina Comédia…
 
Nenhuma das pessoas que participaram à frente deste processo de transformar BH na capital da ousadia em comunicação popular tinha o idolatrado diploma de jornalista…
 
Mesmo assim, afrontando acintosamente toda a argumentação da Fenaj – Federação Nacional de Jornalistas, a Rádio Favela e a TV Comunitária são os dois maiores celeiros para formação de profissionais da comunicação do estado e talvez do país, inclusive para estrangeiros. Tornaram-se foco de teses de mestrado e doutorado em comunicação. Durante a cobertura que fizemos da Intercom, anos atrás, aqui em BH, estudantes de todo o país não queriam outra coisa além de visitar a tal da Rádio Favela. Ou seja: Inúmeros estudantes de comunicação vão aprender a trabalhar com leigos, que futuramente desprezarão como incapazes de exercer a profissão que lhes ensinam! Não serão jamais dignos de serem seus coleguinhas… Trata-se de uma relação predominantemente utilitarista.

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